Cadeia de valor

Gosto muito de futebol, mas sou um torcedor comum. Acompanho as notícias do meu time do coração mas sem fazer muito barulho; sem fanatismo. Sou racional quando o assunto é futebol. Existe alguém que se comporte com racionalismo quando o assunto é o esporte que move multidões justamente pela emoção?

No período de frequência à escola primária municipal vê-se meninos da faixa etária daquela idade escolar gostam de jogar futebol nos intervalos para lanche. Mais tarde percebem que se quiserem jogar bola terão de participar de programas sociais dos governos locais que exige frequência e desempenho escolar ou frequentar escolinhas de futebol pagando pelos serviços ou uso da estrutura comercial. Os jogadores de hoje, os profissionais é claro, bem diferente dos que praticam o esporte por diversão recebem para jogar!

Cadeia de valor
Cadeia de valor

Bem. O fato de receber um salário (e que salário!) para jogar bola eu já compreendi e aceitei. E já aceito também o fato de haver jogadores que recebem salários bem maiores que outros. No entanto é preciso entender porquê um jogador igual a todos os demais em princípio, recebe pelo seu trabalho um salário muitas vezes superior ao dos outros. Em verdade, nem mesmo a emoção e a euforia que um jogador provoca em seus fãs justifica justificaria a decisão de um dirigente de futebol pagar valores diferenciados para os jogadores. Afinal estamos falando de um esporte coletivo.

Para justificar um salário diferenciado o atleta deve produzir mais, comprovadamente. E produzir mais significa marcar muitos gols e ganhar muitos campeonatos. Sozinho. Ou seus companheiros poderiam exigir cotas por ajudar nesta árdua tarefa.

Cadeia de valor

Cadeia de valor
Cadeia de valor de Porter

Se tentarmos entender o mecanismo determinante da diferenciação salarial entre jogadores de um time, algo racional numa multidão que se comporta de maneira irracional e movida pela emoção encontramos a resposta num lance genial. Uma partida em que o lance selecionado para ser usado como prova do feito acontece nem é assim tão importante. Não era uma partida em que se disputava passagem para uma grande final, tão pouco a partida valia disputa pelo primeiro lugar. Mas no lance esta a resposta das perguntas e dúvidas sobre a diferenciação salarial.

O lance que resultou no quarto gol do melhor jogador atuando no Brasil atualmente – eu acho que é o melhor em atuação no mundo – mostrou por que é um atleta diferenciado. O momento pode não ter sido observado em seus detalhes pelos torcedores, talvez por serem irracionais demais, mas foi certamente foi captado pelas lentes das TV’s, apresentado e relembrado por boleiros, jornalistas e comentaristas esportivos. No lance,  o jogador como um líder de um mercado, montou estratégia para vencer, orientando alguns companheiros próximos para atrair a atenção da sua própria marcação. Instantes depois deixa três adversários literalmente comendo grama e marca um belo gol. Neste lance podem ser encontradas a diferenciação e as respostas das perguntas e dúvidas; até os motivos do seu salário diferenciado!

Mas por que descrever um lance de um jogo assistido na TV sendo que o que se quer em verdade é compreender o que é Cadeia de valor?

Bem. Durante uma partida de futebol – um esporte coletivo – cada jogador tem como objetivo entregar um produto para o outro jogador. O produto é o passe que deve ser realizado de forma que contenha um valor adicionado comparado ao recebido. O valor é representado pela melhor posição do jogador cliente para atingir o gol adversário. Na maioria das vezes é necessário que diversos passes sejam realizados fazendo a bola passar por muitos jogadores. Mas importante é observar que cada passe realizado por um jogador deve ser realizado para o outro em melhores condições de atingir o objetivo.

Para realizar um passe cada jogador, o emissor e o receptor do passe, toma decisões estratégicos com a única finalidade de valorizar, isto é, adicionar valor ao produto entregue e recebido. Estas ações coordenadas, esteja ou não com a posse da bola valoriza (ou não) cada vez mais cada passe feito ou recebido. O valor adicionado à jogada final se manifesta na forma de situações em que os demais jogadores se qualificam para defender ou realizar o objetivo.

A cada passe realizado e recebido os jogadores envolvidos realizam intensa coordenação usando comunicação de todo tipo. Algumas reuniões de natureza diversa, agendadas ou não são realizadas em intervalos curtos em que a bola pára de rolar. Neste momento as estratégias são reavaliadas, revisadas e reformadas, sendo possível identificar um autêntico ciclo PDCA instantâneo sendo rodado.

É possível observar que há uma intensa ação de coordenação entre cada jogador, entre todos jogadores, entre eles e seu técnico e também entre todas irracionais e emotivas torcidas presentes. Essas ações adicionam valor aos passes realizados e recebido por cada jogador, à partida em si, às partidas futuras, ao campeonato e ao valor da remuneração dos jogadores mais competentes na gestão de suas carreiras. É possível fazer analogia entre um processo de negócio e o que um jogador de futebol realiza a cada lance.

Processos de negócios transformam produtos de fornecedores usando-os como insumos que após terem sido processados são transformados em novos produtos de acordo com requisitos de seus clientes. Um jogador, como parece ser análogo, recebe um passe como insumo que depois de transformá-lo entrega ao jogador companheiro melhor posicionado para atingir o gol adversário. Em ambos, intensas atividades de coordenação são realizadas com o propósito de adicionar valor aos seus produtos. A coordenação tem a função de estabelecer elos de ligação confiáveis entre os jogadores ou indústrias numa sequencia de “jogadas” realizadas durante uma partida ou sistema produtivo. Elos de ligação são também essenciais numa sequencia de processos dentro de uma organização. Eles conduzem da maneira mais objetiva as relações existentes entre cada etapa da geração de produtos tendo como objetivo atender as necessidades de clientes.

Podemos usar o dinamismo de uma partida de futebol para demonstrar visualmente e de maneira virtual como funciona uma cadeia de valor, demonstrando as etapas em que determinado produto recebe valor além daquele que já possui, valor adicionado. O que foi descrito acima é observado e analisado na cadeia de valor de uma empresa e envolve tanto as suas atividades primárias quanto as de apoio.

Porter (1989) melhor descreve a forma como as empresas geram margens de lucro valendo-se da análise de sua cadeia de valor. Em uma visão mais amplificada e expandida do conceito, descreve como ocorrem os elos de ligação entre as empresas correlatas de uma indústria, todas em busca de suas respectivas vantagens competitivas. Na visão amplificada, a soma das vantagens de todas as indústrias em uma nação constitui o que denominou de ‘vantagem competitiva das nações‘ essencial para a liderança das empresas globais.

Vantagem competitiva

As nações possuem vantagem competitiva em determinadas indústrias (de produtos ou serviços) por que as empresas da indústria as tem. As empresas possuem vantagem competitiva por que consegue entregar produtos e serviços capazes de gerar margens a seus clientes comparativamente as demais da mesma indústria.

A vantagem que o melhor jogador de futebol do Brasil possui consiste na sua capacidade de adicionar valor ao seu produto e de atuar satisfazendo seu clube, torcedores e fãs concedendo-lhes margens de satisfação acima dos demais concorrentes jogadores.

Merece o salário que recebe.

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