Um estado negro!

O negro brasileiro deve, neste centenário da Abolição da Escravatura, em primeiro lugar, meditar sua situação como membro da sociedade brasileira, bem como os aspectos sociais e econômicos que dela decorrem.

As relações sociais as quais o negro foi submetido após ser trazido da África permitem-nos precisar que relações seriam assumidas no futuro. A forma como foi arrancado da sua terra, separado de sua família, proibido de manifestar sua cultura e religião, transformado em objeto cujo valor fundava-se necessariamente na sua capacidade de produzir bens destinados ao consumo da casa grande, determinarm as outras relações, sentidas no presente.

Abdias do Nascimento, sociólogo negro, narra: “nós, negros do Brasil, fomos obrigados a esquecer uma história e nossa condição por tempo demasiadamente longo”.

Pela lei de terras de 1850, os Kilombos – locais onde os negros se reuniam – eram ilegais. Toda terra tinha que ser comprada do governo. Os negros, sem dinheiro, não podiam comprar sequer, o mínimo de terra necessária à produção de alimentos para subsistência, enquanto que aos europeus, eram doadas grandes quantidades. Esta lei constitui-se o principal instrumento de injustiça causada ao negro do Brasil.

Relações sociais do negro
Relações sociais do negro

Estatísticas recentes mostram que a vida média do negro brasileiro é inferior à vida média do restante dos brasileiros.

Retomando a retórica redundante, tanto o negro como o branco, vivendo em um mesmo contexto social, qual seriam as causas dessa diferença? Com presciência as causas são consequência daquelas relações do passado, que permanecem no presente. O negro não ficou livre da escravidão há cem anos atrás, mas servo durante aqueles anos. A teórica democracia racial não pode ser verificada. Não há motivos para comemorar!

Retomemos o discurso redundante da lei áurea. Na época da assinatura da lei, devido à situação social e econômica brasileira e principalmente, da luta luta e mobilização dos escravos, mais de 80% deles já viviam em liberdade. Isso significa que a verdadeira liberdade seria arrebatada, não necessitando, porém, da promoção e benefício da lei. Com a lei, desconfigurou-se o caráter ideológico da luta do negro pela libertação, que culminaria na real liberdade. Com a lei, o negro, de escravo possou à condição de servo, pois foi e está obrigado a aceitar os serviços mais duros e perigosos, a remuneração inferior no exercício da profissão, apesar de igualmente qualificado.

Por tudo isso, o negro brasileiro deve retomar a luta – mesmo com cem anos de atraso – e arrebatar a liberdade ainda que tardia. Há a necessidade de o negro conscientizar-se de que precisa de um lugar onde possa resgatar sua memóvia, desenvolver sua economia, praticar sua religião, difundir sua cultura, enfim, viver em liberdade.

Parece-me, no momento, que a forma de consegui-la é unir-se, no sentido de se constituir um estado negro brasileiro.

Texto publicado na Revista do CAECO (Centro Acadêmico de Economia) em 1980, com nova redação

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4 comentários sobre “Um estado negro!

  1. ‎A identidade negra no Brasil ainda é um processo em construção. Isto porque, mesmo sendo uma nação que é fruto da miscigenação de várias raças, entre elas a negra africana, ainda convive-se com o preconceito, no dia a dia, uma espécie de nazismo fora de época e de sentido. Afinal de contas, ser negro não é ser marginal, feio, inferior ou incapaz: ser negro é lutar, não apenas diferenciar-se pelo critério da cor e dos traços físicos.

  2. O texto é de 1990 e foi transcrito como foi publicado na época. Dá para perceber que apesar de alguns avanços políticos na instituição de políticas públicas para reparar erros do passado a situação no geral ainda e muito semelhante a da época. Ainda há discriminação sutil, imperceptivel ao olho nú mas dolorido para quem ainda tem que conviver com baixos salários comparativos e atendimento precário pelos órgãos de saúde pública e difícil acesso à justiça gratuita. Talvez a sugestão do texto não seja adequada para os dias de hoje mas serve à reflexão.

  3. Existe racismo no Brasil?Eu quase nunca vi,mesmo sendo negra nunca vi.Nunca vi mas senti várias vzs,ninguém grita eu sou racista mas agem cm tal.
    Ser negro não é ser diferente,ser negro é ser humano do mesmo jeito q os brancos,nem melhor nem pior.
    Quero igualdade.(NEGRO A RAIZ DA LIBERDADE)

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