Vinte anos de cultivo da soja em Mato Grosso

Recentemente este blog postou uma análise da produtividade da cultura da soja no Brasil e comparou o seu desempenho com o da tecnologia de produção da região centro-oeste e do Estado de Mato Grosso. A análise foi motivada pela observação de que a partir do ano 2000 a produtividade média da cultura do grão se manteve estável ao nível médio de 3,10 toneladas por hectare colhida. Os dados para a análise foram compilados das séries estatísticas e históricas publicadas pelo IBGE.

O comportamento dos níveis médios de produtividade da cultura da soja observado revela que a partir do ano 2000/2001 a atividade deixou de gerar ganhos de produtividade para os agentes da atividade. Sendo assim, os aumentos constantes da produção passaram a ocorrer por conta de sucessivos incrementos de áreas à atividade de produção da soja. Dessa forma, o objetivo da análise foi certificar, pela análise do comportamento da produtividade da atividade de cultivo do grão, se o sistema de produção adotado ainda propiciava uma constante e crescente produtividade das lavouras.

A produtividade da soja em Mato Grosso

O início da série estatística e histórica (1991) dos últimos vinte anos de produção de soja no Brasil apresenta diferença considerável nos níveis produtividades regionais. No entanto, constata-se que essas diferenças foram desaparecendo ao longo do período, demonstrando que existe uma tendência à convergência dos níveis de produtividade brasileira e do centro-este para os níveis da produtividade de Mato Grosso de 3,10 toneladas por hectare colhida em 2010. A hipótese de que a disseminação da tecnologia de produção, anteriormente desenvolvida para o cultivo da soja em áreas de cerrado foi considerada para explicar a tendência do afunilamento das produtividades médias na atividade.

Uma rápida observação dos dados da produção (quantidade produzida) e da área usada na atividade confirmam esta tendência.

De 1991 a 2010, a área usada na produção de soja no Brasil passou de 9,6 para 23,3 milhões de hectares, um incremento de mais de 142%  na área utilizada, que foram incorporadas ao sistema de produção do grão. No mesmo período, a região centro-oeste que em 1991 utilizou 3,07 mil hectares, em 2010 já usava 10,4 mil hectares, neste caso, incremento de 240% de novas áreas. Mato Grosso, que em 1991 produzia 2.738.410 toneladas de soja em 1.164.585 hectares em 2010 produziu 18.787.783 toneladas em 6.226.452 hectares, uma taxa de incorporação de área de 434%. No período a produção brasileira cresceu 360%, a do centro-oeste 384% e a mato-grossense, 586% enquanto que o uso das áreas na produção brasileira, do centro-oeste e mato-grossense foi de 142%, 240% e 384%, respectivamente. Ver tabela SOJA: Quantidade produzida e área colhida (1991 – 2010).

Constata-se, também, que em 2004 houve redução considerável da produtividade nas áreas delimitadas para observação. No entanto, a retomada da produção brasileira somente ocorreu em 2007 ano em que as culturas voltaram a produzir 2,81 toneladas de soja por hectare colhido. No centro-oeste, a retomada ocorreu aos níveis de 2,91 toneladas por hectare. Em Mato Grosso a produtividade passou de 3 toneladas por hectare colhida mesmo nível do ano de 2000.

A propósito, o comportamento da produtividade da atividade da cultura da soja carece de que considerações sobre os sistemas de produção nacionalmente adotados sejam tecidas.

Sistema de produção

Consideramos que foram desenvolvidos sistemas de produção de soja específicos para regiões específicas, cada uma estimando e controlando variáveis e fatores de produção relevantes para a cultura da soja.

Um sistema de produção ou tecnologia de produção da soja específico foi desenvolvido para o cerrado do Brasil Central. Ele foi desenvolvido e disseminado para outras regiões do país pela Embrapa. A Instituição o desenvolveu com o auxílio de pesquisas localizadas  e em conjunto com outras instituições de pesquisa, documentou e publicou as técnicas buscando desenvolver economica e socialmente regiões com potencial semelhante ao do cerrado.

Para atingir seu objetivo passou a publicar anualmente o documento “Sistemas de Produção – Tecnologias de produção de soja – Regiões Central do Brasil“. Por meio dele disseminou os procedimentos de produção e seleção de sementes, preparo do solo, determinação do período de semeadura e colheita. Na prática, determinava as especificidades das regiões para considerar fatores de produção relevantes. Também eram considerados condições climáticas, procedimentos de seleção de sementes, manejo do solo envolvendo a sua correção e técnicas de plantio bem como o controle de pragas e doenças surgidas posteriormente. A disseminação dessas técnicas para outras regiões contribuiram para o nascimento de outras regiões produtoras e mais recentemente para a convergência do nível de produtividade de novas regiões para o nível de produtividade das regiões centrais.

Importante notar que estes sistemas de produção desenvolvidos contribuiram e ainda contribuem para tornar homogênos os níveis de produtividade da cultura da soja em todo território nacional.

Séries históricas da cultura da soja

Soja: quantidade produzida x área colhida
Soja: quantidade produzida x área colhida

Os vinte anos de produção e a compilação da produtividade anual brasileira, do centro-oeste e mato-grossense usaram as séries históricas das quantidades produzidas e das áreas colhidas da Produção Agrícola Municipal do Sistema IBGE de Recuperação de Dados – SIDRA.

É importante monitorar o comportamento da produtividade, especialmente para atividades e produtos importantes para a economia de uma região. Apesar de a série histórica apresentar dados agregados por área geográfica acabam, mesmo assim, fornecendo informações sobre algum problema relacionado com a tecnologia de produção. Isso pode ser observado se os dados sobre produção, área colhida e produtividade forem desagregadas por Estado. Desagregando pode-se observar que algumas regiões e Estados iniciaram a pouco tempo na atividade mas já conseguem produtividade superior à do Estado de Mato Grosso.

Vejamos alguns exemplos, Estados, que estão obtendo produtividade acima de 3 toneladas por hectare colhida.

Acre

Dados das séries históricas indicam que a atividade na produção da soja iniciou-se em 2005 e a produtividade naquele ano foi de 2,07 toneladas por hectare. Em 2010 a produtividade foi de 3,30 toneladas por hectare colhida. Em cinco anos, incremento de 60% na sua produtividade.  Sustenta, nos últimos 3 anos, produtividade acima de toneladas por hectare colhida.

Distrito Federal

A Unidade da Federação vem sustendo produtividade acima de 3 toneladas por hectare desde o ano de 2008. No último ano da série obteve produtividade de 3,20 toneladas por hectare colhida.

Rondônia

Excetuando ano 2006 atípico, vem sustentando desde 2005, produtividade acima de 3 toneladas por hectare colhida, e produziu, em 2010, 3,18 toneladas em uma hectare.

Paraná

O segundo maior produtor de soja alcançou produtividade acima de 3 toneladas por hectare apenas no ano de 2010; em 2008 conseguiu produzir 2,98 toneladas em uma hectare. Historicamente sua produtividade está, em média, abaixo de 3 toneladas por hectare.

Santa Catarina

Apesar de ter colhido à taxas de 3,13 toneladas por hectare em 2010, os anos anteriores estão muito abaixo dessa produtividade. Mas obteve, de 2005 a 2010, incremento em sua produtividade de 80%.

 Mato Grosso do Sul

Da mesma forma que o Estado de Santa Catarina, obteve uma produtividade acima de 3 toneladas por hectare colhida apenas em 2010. A série histórica revela que o Estado jamais alcançou produtividade acima de 3 toneladas por hectare. De 2005 para 2010 obteve ganho de produtividade de de 67%.

Bahia

Em 2010, comparativamente ao ano de 2005, seu ganho de produtividade foi de 10%. As variações de produtividade foram acentuadas, mas conseguiu produzir, em 2010, 3,06 toneladas por hectare colhida.

Mato Grosso

O maior produtor da oleaginosa vem sustentando desde 2005, uma produtividade acima de 3 toneladas por hectare. O ganho de produtividade do Estado no período de cinco anos foi de apenas 3,7%. Importante observar que se este período for alongado para 10 anos, o ganho de produtividade é 0%. Isto é, o Estado produziu ao nível de 3,02 toneladas por hectare em 2010, o mesmo nível produzido em 2000.

Trata-se de período muito longo para incorporar ao processo produtivo técnicas, fatores até procedimentos que quebrem a barreira, definitivamente, de 3 toneladas por hectare colhida.

A questão das especificidades e agregados

Necessário afirmar que os dados tratados estão agregados para o Brasil, região centro-oeste e Mato Grosso e as demais unidades da Federação relacionadas anteriormente. Está claro que existem especificidades locais e até regionais. Ao desagregar dados ao nível de propriedade pode-se observar que existem produtividade acima de 4,5 toneladas por hectare.

A análise com base e dados agregados, no entanto, permite observar o impacto da disseminação dos sistemas ou tecnologias de produção nos Estados, regiões, áreas e até propriedades.

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