Uma revisão de literatura para estudos setoriais

O estudo das relações entre os setores de uma economia teve início com François Quesnay, com a edição do Tableau Économique e o modelo de Equilíbrio Geral de Léon Walras. Também contribuíram, muitos anos depois, Leontief, com o estudo sobre matrizes Insumo-Produto criado a partir das Contas Nacionais, que relacionava a apropriação  primária da renda por ramo de atividade econômica. Entretanto o seu uso foi difundido apenas após a incorporação da matriz ao Sistema de Contas Nacionais, estruturado por Keynes, a partir das contas dos agentes econômicos empresas, famílias, governos e o resto do mundo.

O modelo de Leontief pode ser resumido como um método de representação estático da economia, tal como os sistemas empregados em contabilidade de partidas dobradas, nas quais se vincula cada ramo de atividade aos seus setores. Inicialmente era expressa pelo quantum de produto transacionado entre os setores da economia nacional e entre esta e o resto do mundo, sendo posteriormente expressa em valor, constituindo um sistema de contabilidade nacional. Trata-se de esquema matemático[1] que se apóia nos princípios da Teoria Neoclássica do Equilíbrio Geral e do Pleno Emprego que se baseia nos seguintes pressupostos: a) que existe de pelo menos um conjunto de preços que compatibilizam todas as quantidades ofertadas e demandadas; b) que pode haver equilíbrios múltiplos os quais permitem comparações em diferentes posições e c) que o equilíbrio tem sua origem nas forças que fazem com que o sistema econômico tenda a um novo equilíbrio após desequilíbrios.

O sistema de matriz insumo-produto tem sido aplicado no estudo das relações entre economias nacionais, regionais e até municipais. MONTOYA e GUILHOTO (1998) realizaram estudo do perfil das estruturas de transações internacionais e os setores-chave na economia do Mercosul, com base na matriz insumo-produto internacional do Mercosul de 1990.

Revisão de Literatura
Revisão de Literatura

O estudo sobre a interdependência das relações inter-setoriais vêm-se mostrando tema de interesse para os pesquisadores das teorias de desenvolvimento econômico. O modelo insumo-produto vem sendo igualmente empregado nestes estudos, exemplificando o de MONTOYA (1998) no qual busca identificar os possíveis efeitos econômicos de determinadas ações públicas e privadas sobre as estruturas produtivas de um país. A referida teoria, segundo o autor, supre as necessidades analíticas mediante a simplificação dos sistemas e suas propriedades tais como a dependência e interdependência, hierarquia e circulação entre os setores. Constitui ao mesmo tempo base empírica para identificar as ligações entre os setores da economia de um espaço econômico.

Num trabalho no qual se buscou determinar e comparar o impacto do crescimento dos Complexos Industriais Brasileiros sobre a geração de emprego e de saldos comerciais nas exportações, BAHIA, FURTADO e SOUZA (2002), utilizaram as matrizes insumo-produto brasileira de 1985 a 1996.

Aplicando o modelo insumo-produto à Contabilidade de Custos e à Contabilidade Gerencial, SILVESTRE (2002) implementou um sistema de custeio baseado em atividades ABCActivity Based Costing. Pressupondo que uma organização para realizar as suas atividades incorre em custos, sendo que para cada atividade seja designado um custo, pode-se estabelecer uma inter-relação custo-atividade. As relações podem ser usadas para avaliar o desempenho de cada atividade em particular.

NUNES e CONTINI (2001) analisaram a participação do Complexo Agroindustrial – CAI na economia Brasileira usando o conceito de valor adicionado de cada segmento. Para o referido cálculo, usaram as informações referentes às operações realizadas na produção e distribuição de insumos agrícolas, operações relativas à própria produção agrícola e seu armazenamento bem como aquelas atividades relacionadas ao armazenamento, processamento e distribuição dos produtos agrícolas.  O modelo de Leontief aplicado partiu dos resultados das Contas Nacionais do Brasil do ano de 1996. Na pesquisa, usando o instrumental proporcionado pelo modelo insumo-produto, os autores dimensionaram e calcularam a participação do Complexo Agroindustrial no Produto brasileiro.

Analisando o setor supermercadista brasileiro durante a década de 1990, SESSO FILHO (2003) usou a teoria insumo-produto para avaliar a sua importância na economia e os impactos de suas transformações com base nos resultados dos índices de ligações intersetoriais de Rasmussen/Hirschman, índices puros (GHS) e campo de influência. Para a realização do estudo, no entanto, o autor desagregou o setor supermercadista do setor Serviços objetivando a realização da análise proposta. Concluiu que o setor supermercadista em 1999 tinha uma participação de 5% no PIB nacional, mantendo-se estável no período de 1995/99. Concluiu também que a capacidade de geração de emprego e renda do setor foi reduzida no período de 1990/99, sendo que a redução foi menor se comparada com o resto dos setores da economia. Segundo o estudo, a redução se deveu à modernização do setor que realizou investimentos em automação comercial.

A produção cultural muitas vezes não é tratada sob a ótica de uma atividade econômica. O trabalho de SILVA (2001) utilizou o modelo-insumo produto para melhor compreender a produção cultural através da atividade cultural, levando em conta que empregam pessoas, pagam salários, recolhem impostos, geram empregos e renda, contribuindo dessa forma, para o crescimento econômico local. O referido estudo utilizou a matriz insumo-produto para Minas Gerais do ano de 1996, considerando o modelo inter-regional Minas Gerais e resto do Brasil. SILVA desagregou a matriz em 42 atividades, agregou o valor adicionado e desagregou a demanda final em exportações entre as regiões e o resto da demanda final para obter através dos cálculos de índices de produção e renda, o significado da atividade cultural sobre a economia mineira.

CASIMIRO FILHO (2002) analisou as contribuições do turismo à economia usando o modelo insumo-produto com base na estrutura produtiva de 1999 onde efetuou e apresentou, para análise, os índices de ligação Hirschmann-Rasmussem, índices puros de ligação, índices de ligação intersetoriais, além dos multiplicadores do tipo I ou simples e do tipo II, totais. No trabalho, o autor analisou também os impactos que poderiam ocorrer na produção, renda e emprego, caso houvesse uma variação na demanda final, evidenciando que os setores que compõe o setor do turismo apresentam elevados multiplicadores setoriais para o emprego e para renda, contrariamente ao emprego que se apresentaram relativamente baixos.

FIGUEIREDO (2003), usando o modelo insumo-produto inter-regional, mostrou de forma empírica a importância relativa do setor agrícola na estrutura produtiva do estado de Mato Grosso. A partir dos indicadores fornecidos pelo modelo, identificou os setores-chave mais importantes, ao mesmo tempo, determinou o impacto das exportações mato-grossenses de produtos agrícolas, em especial a soja, sobre a produção total, valor adicionado e geração de empregos. No trabalho FIGUEIREDO calculou ainda, o PIB do Complexo Agroindustrial Mato-grossense da Soja e estudou o impacto da sua produção nos meios de transporte rodoviário e ferroviário no atendimento à demanda final das atividades da economia de Mato Grosso, concluindo que, de acordo com os índices de ligações, os setores agrícolas como o da soja, bovinos e outros da pecuária são setores-chave, servindo de pólo para o desenvolvimento econômico. Além desses setores, aquele relativo à produção de óleos vegetais, abate de bovinos e da produção de álcool foram considerados importantes.

COLLE (1998) em seu trabalho sobre a cadeia produtiva do trigo no Brasil, usou o modelo insumo-produto para analisar algumas de suas características. Nele, determinou o número de empregos gerados no setor agrícola produtor de trigo e nas atividades ligadas a ele. Foram feitas várias simulações com diferentes níveis de produção do trigo, baseando-se na matriz insumo-produto brasileira de 1995.

A aplicação do modelo insumo-produto, no entanto, requer a delimitação do espaço econômico em estudo. Foram realizados estudos, observando os conceitos de CAI – Complexo Agroindustrial, segundo MULLER (1991). Segundo este conceito, o CAI se assemelha ao CI – Complexo Industrial, contendo um setor Agrícola que o diferencia. O setor Agrícola possui relações com os outros setores não agrícolas, adquirindo insumos da indústria, usando serviços ofertados no mercado, produzindo e ofertando sua produção à indústria de beneficiamento de agroalimentos através de canais de distribuição.

O problema principal de MULLER (1991) está justamente em como representar um espaço analítico específico, representando, o mais próximo possível em nível macro ou micro do objeto real.  O autor procura responder ainda, a questão acerca do uso apenas das funções morfológicas da unidade em análise, sendo ela composta por unidades teóricas e técnica, além da morfológica. A definição, conceitualização e delimitação do objeto que se pretende analisar devem expressar com clareza o seu espaço econômico juntamente com suas particularidades técnicas, concorrenciais, econômicas e financeiras.

Para compreender a noção de CAI, MULLER afirma, deve-se ater às três fontes que sustentam a noção de CI: a primeira, é a teoria de produção de Leontief e a sua matriz insumo-produto obtida com base nos supostos de que existem relações de interdependência entre os setores; a segunda é a teoria do desenvolvimento econômico, que trata da autonomia ou independência de blocos ou conjuntos de setores em relação aos demais conjuntos de blocos e setores, características técnicas de produção, composição do produto e o seu destino, permitindo que se associem processos produtivos hierarquizados entre si mesmo que interdependentes.  Por último, as reformulações feitas à teoria da Organização Industrial especificamente em relação à formação de preços, à teoria da firma como também, à teoria do oligopólio.

Estrutura produtivo-comercial do Complexo Agroindustrial
Estrutura produtivo-comercial do Complexo Agroindustrial

A definição de CI deve-se à identificação três elementos. O primeiro é a estrutura da interdependência produtiva e seus graus de associação entre os processos produtivos. O segundo elemento refere-se ao poder de mercado, aderente ao núcleo do CI. O núcleo de um CI estrutura-se em condições oligopólicas e produz certo produto cujo processo de produção permite a separação entre um e outro setor isto é o núcleo deve deter um dos processos produtivos dentro da associação de processos. O terceiro elemento trata-se do grau de associação entre os núcleos. Os núcleos detêm o poder de mercado o qual demarcam as fronteiras do CI, liderando na hierarquia das redes de transmissão do poder. A inserção de um conjunto de processos relativos à produção agrícola envolvendo aqueles processos produtivos da cadeia de insumos fornecidos pelas atividades denominadas indústria para agricultura, agroindústria de alimentos e outras indústrias, distribuição interna e distribuição internacional forma-se o espaço econômico do CAI.

Os trabalhos citados preocupam-se em estudar as relações existentes entre estes setores, encontrando no modelo idealizado por Leontief a ferramenta apropriada para a construção e solução das questões pertinentes à determinação dos agregados macroeconômicos e seus reflexos na demanda final do espaço econômico em estudo.


[1] Um modelo matemático é uma descrição em linguagem matemática de um objeto que existe em um universo não matemático, isto é, a representação matemática de um espaço econômico descrito por sistemas de equações, cuja solução. Os modelos são construídos para prever em ensaios, a relação existente entre variáveis, na economia, variáveis econômicas. A construção de modelos matemáticos compõe-se de três etapas: a) a construção do modelo propriamente dito, em que o objeto não matemático em análise é descrito em uma linguagem matemática; b) a análise do modelo que compreende o estudo do modelo matemática e c) a interpretação da análise matemática, pela aplicação dos resultados matemáticos aos objetos inicialmente considerados não-matemáticos.

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