Metodologia para análise setorial usando matriz insumo-produto (I)

Como exposto em outros textos aqui no blog, o atual estágio de produção e produtividade da soja é avançado. Já o grau de industrialização do produto no espaço econômico delimitado como CAI – Complexo Agroindustrial não se apresenta em estágio capaz de receber a produção e transformá-la em alimento ou produto de maior valor agregado. As informações sobre fluxo de bens e serviços da mesma forma não se encontram adequadamente organizadas, As informações disponíveis tal como se apresentam dificultam a realização de pesquisa científica.

Este texto, apesar disso, descreve uma metodologia que com as devidas adequações e utilização de premissas pode ser utilizada em análise setorial.

A revisão de literatura presente em outro post descreve os vários casos da aplicabilidade do modelo insumo-produto, adotado para a análise dos impactos sobre a economia mato-grossense caso haver uma mudança na quantidade exportada de soja, transferindo-a para as indústrias de esmagamento e beneficiamento locais.

Análise setorial com matriz insumo-produto
Análise setorial com matriz insumo-produto

A aplicação adequada do modelo em referência depende da existência de informações disponibilizadas por órgãos governamentais em sua maioria, dada a sua magnitude e complexidade. Em razão disso, o estudo proposto usará, os dados contidos na matriz insumo-produto apresentada em FIGUEIREDO (2003)[1]. Segundo a autora, a matriz insumo-produto inter-regional para o Mato Grosso e resto do Brasil, utilizada em seu trabalho acadêmico, é fruto de um projeto realizado em equipe, sob a coordenação do professor Joaquim José Martins Guilhoto, visando atender além de um estudo detalhado da economia Brasileira, diversos interesses de pesquisas específicas.

A referida matriz foi estimada a partir da matriz inter-regional dos Estados da Amazônia Legal e resto do Brasil, a qual por sua vez foi obtida a partir da matriz nacional para o ano de 1999, estimada a partir de dados preliminares das Contas Nacionais para 1999, de acordo com uma metodologia desenvolvida por Guilhoto referente ao ano de 1996.

A autora observa ainda que o modelo insumo-produto apresentado para a região amazônica foi construído com uma abertura de 90 grupos de atividades econômicas, compatibilizados com a pauta de atividades e produtos da MIP do Brasil[2]. Como o modelo insumo-produto construído possui as matrizes dos estados (nove estados) e restante do país (10 matrizes de insumo-produto), os fluxos de bens e serviços entre eles foram também estimados. Portanto, foram determinadas as importações e as exportações do resto do mundo e as transações interestaduais.  Os fluxos regionais foram calculados por meio de coeficientes locacionais e do método biproporcional de ajuste.

As informações foram compiladas a partir de publicações dos Censos da Indústria, Comércio e Serviços do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, SIDRA (Pesquisa Agrícola Municipal, Pesquisa Pecuária Municipal e Extrativismo Vegetal), dados coletados junto ao Ministério da Agricultura, Anualpec, Anuário Mineral Brasileiro (2000), Pesquisa Industrial Anual – PIA Produto/1999, Pesquisa Industrial Anual – PIA Empresa/1999, Contas Regionais do Brasil (2001), Pesquisa Anual da Indústria da Construção (2000), Pesquisa Anual do Comércio (2000), Pesquisa Anual de Serviços (2000), Despesas Públicas por Funções (2001), dentre outras.

A análise usará os dados da referida matriz sobre a qual foi aplicado o modelo regional de análise de Leontief para determinação dos impactos sobre a economia de Mato Grosso em decorrência de uma mudança na demanda final correspondente aos impostos desonerados em decorrência da lei Kandir sobre a soja no ano de 1999, sendo o referido quantum aplicado ao fluxo na demanda intermediária. Principalmente foi considerada a hipótese de beneficiar e industrializar integralmente a soja exportada nas  agroindústrias do CAI mato-grossense.

A definição[3] de Complexo Agroindustrial é distinta de outros conjuntos produtivos considerando suas cadeias de insumos contendo produtos específicos, poder de mercado e seu núcleo de poder e pela sua rede de transmissão. Esta definição contempla a concepção de que as atividades agrárias mantêm ligações com os setores da indústria para a agricultura, agroindústria de alimentos e outras agroindústrias, e considera também, o setor de distribuição interna e internacional, uma vez que é extensão do seu conjunto produtivo.

O estudo usa como base de pesquisa e análise, um Complexo Agroindustrial delimitado e composto por 52 setores segundo o conceito adotado por POSSAS (1990) e MULLER (1991). O Complexo Agroindustrial[4] “não é identificável pelos conceitos usuais”, pois “as interrelações entre empresas-setores-mercados criam espaço único”, não classificado como micro ou macro, como está convencionado. O Complexo Agroindustrial, partindo da noção de Complexo Industrial – CI é definido por MULLER:

“Em termos amplos, são três as fontes básicas que servem para indicar e sustentar a noção de CI. Uma é a teoria da produção de Leontief, e a matriz obtida a partir de seus supostos, em termos de indicar as relações de inter-dependência setorial. A outra é a teoria do desenvolvimento econômico com as contribuições derivadas dos trabalhos de Perroux (1965), Hischman (s.d), Schumpeter (1985), Chenerry & Watanabe (1958), Simpson & Tsuki (1965)…” (MULLER, 1991, pg. 30-31)

A noção e, por conseguinte, a delimitação do Complexo Agroindustrial Mato-grossense da soja é estabelecida incluindo-se o setor agrícola, juntamente com seu conjunto de cadeias de fornecimento de insumos e consumo do seu produto, inclusive os de distribuição dos produtos as relações inter-dependentes inerentes ao processo.

Os textos “Modelo insumo-produto” e o “Modelo insumo-produto interegional”  a serem publicados complementam este post.


[1] Além dos dados extraídos da dissertação de mestrado, a autora prestou ainda, informações adicionais por email sobre a metodologia e fontes de dados para os trabalhos de estimação da matriz insumo-produto.

[2] A classificação oficial do IBGE compreende 42 setores, porém, a matriz construída pela equipe para o ano de 1999 foi desagregada em 90 setores, utilizando-se de diversos bancos de dados.

[3] Ver MULLER (1991,  pg.37).

[4] Ver MULLER (1991).

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