A relação entre a detenção de Lula e a estratégia de domínio regional

por André Julião, no Jornal Tornado

A mediática detenção do ex-presidente brasileiro Lula da Silva, num circo desproporcional e montado à «americana», pode ser um teste para a prisão efectiva do ícone do PT, assumem alguns media e críticos brasileiros. Ao contrário do que a opinião pública pensa, o alvo não será Dilma, mas o próprio Lula e aquilo que representa em toda a América do Sul, onde a esquerda parece estar a cair – ou a ser empurrada – como peças de dominó.

José Carlos de Assis, professor de economia internacional e reputado cronista brasileiro, escreveu no jornal digital Brasil 247 que as autoridades, a mando do juiz Ségio Moro, estavam apenas a medir as possíveis reacções à prisão definitiva de Lula, numa espécie de ensaio geral para o que poderá vir aí.

Num espectáculo mediático montado em várias frentes, a detenção terá sido coordenada e premeditada, com réplicas em Curitiba e São Paulo, onde poderá ter havido manipulação de informações, e a invasão do Instituto Lula e de residências de familiares do antigo presidente. José Carlos de Assis alerta para a revolta na Internet, nomeadamente nas redes sociais, contra a parcialidade dos media do «mainstream», com a Globo à cabeça.

Detenção com base em escutas de agências norte-americanas

Para o cronista, trata-se de uma mega-operação montada para atacar a soberania brasileira, sobretudo nos seus pilares base da «indústria estratégica de energia e a indústria estratégica de Defesa», relata. Isto porque, explica, na base de toda a investigação por trás da operação Lava Jato, terão estado escutas telefónicas das agências norte-americanas, que terão colaborado com promotores federais brasileiros.

«Foi a investigação-espetáculo, não a investigação em si, que está levando próximo da quebra as principais empresas de Engenharia Nacional», escreve José Carlos de Assis. «Por coincidência, essas são as empresas essenciais à nossa estratégia nacional de defesa, já que estão construindo, entre outros equipamentos de última geração, o submarino nuclear para a Marinha e mísseis para o Exército, tendo cabido à Força Aérea a aquisição de uma frota de caças suecos», adianta, levantando a suspeita que «não é por outra razão que o almirante Othon, maior autoridade nuclear do país, encontra-se ainda hoje prisioneiro da Lava Jato».

A explicação pode ser bem mais complexa do que um simples suborno ou meia dúzia de apartamentos, adianta o cronista: «A estratégia nacional de defesa, criada no Governo Lula depois que Fernando Henrique praticamente sucateou as Forças Armadas brasileiras, exige que, nas compras de material bélico externo, seja obrigatória a transferência de tecnologia. Os americanos não aceitam isso, pois o Congresso dos Estados Unidos veda a transferência de tecnologia de Defesa. Lembram-se que a Embraer não pode vender aviões para a Venezuela? Vedação americana! Eles querem derrubar nossa exigência de tecnologia para poder participar ativamente de nossas concorrências sem condicionamentos».

Mas os interesses do «Tio Sam» podem não ficar por aqui. É bem conhecida a política de ingerência nos assuntos internos das grandes potências regionais, engendrada por Kissinger, nos tempos idos da Guerra Fria. José Carlos de Assis defende ainda que «os americanos jogam para liquidar a Petrobrás como instrumento do Estado, a fim de meterem as patas no pré-sal – operação muito facilitada agora pelo projeto que José Serra, a serviço da Chevron e outras petrolíferas, conseguiu aprovar no Senado, e que a Câmara ou um veto podem reverter».

O cronista explica: «Ao mesmo tempo, liquidando a Petrobrás e enfraquecendo toda a economia brasileira, o governo dos EUA se esforça por nos impedir de fazer uma articulação estratégica mais profunda com o BRICS, com isso enfraquecendo também seu inimigo estratégico principal, a Rússia. É, pois, mais do que um jogo em Curitiba. É um jogo mundial no qual o boneco de Curitiba joga um papel de vassalo». Kissinger não faria melhor e deve estar a aplaudir do túmulo.

A antítese da detenção de Fernando Henrique Cardoso

Paulo Moreira Leite, director do Brasil 247, compara a detenção de Lula ao depoimento de Fernando Henrique Cardoso (FHC), em 2005. «FHC teve direito a um tratamento exemplar pela civilidade e respeito aos direitos humanos», escreve. «Sequer se pensou em condução coercitiva por uma razão muito simples: facultou-se ao ex-presidente o direito de ser ouvido em casa», acrescenta.

«Ele foi ouvido numa investigação que envolvia um dos episódios mais obscuros de seu governo – contas clandestinas no paraíso fiscal de Nassau-Bahamas, suspeitas de armazenar bilhões de dólares de investidores brasileiros, fossem investimentos legítimos, autorizados por lei, fossem recursos de caixa 2 e, como muitos suspeitavam, dinheiro de corrupção», adianta o director.

Isto para estabelecer um termo de comparação entre os dois episódios e todo o aparato que um teve e o outro nem por isso. «Retirado de casa ao primeiro raio de sol, a condução coercitiva de Luiz Inácio Lula da Silva foi o primeiro lance de um conjunto de medidas marcadas pela vontade de produzir espetáculo através da humilhação», escreve ainda Paulo Moreira Leite.

O Brasil, cuja história é fértil em tiques ditatoriais com suporte militar, vê-se, de novo, a braços com «uma nova versão de um velho instrumento arbitrário aplicado contra os mais fracos e desprotegidos», afirma um jurista ouvido pelo 247. É a tradicional «prisão para averiguações», um eufemismo empregado para manter pessoas detidas sem razão plausível, abolido após a vitória da democracia.

A versão oficial para justificar o triste espectáculo mediático que foi a detenção de um dos melhores governantes que a América Latina já conheceu foi a segurança do próprio Lula. «Se havia uma preocupação com a segurança de Lula, ela não combina com a decisão de conduzir o ex-presidente para prestar depoimento num posto da Polícia Federal no Aeroporto de Congonhas», contrapõe Paulo Moreira Leite.

Fernando Brito, cronista e editor do Tijolaço, defende, por sua vez, que «quem ouviu a fala de Lula, agora há pouco na quadra do Sindicato dos Bancários, percebeu» que o juíz «Moro operou um milagre», que foi despertar «um Lula que andava adormecido». «Mexeu-lhe com os brios», escreve o cronista.

Mas, para Fernando Brito, «o Dr. Sérgio Moro despertou o que não tem ideia da força que tem». «Não é o Lula ofendido e magoado», mas sim «alguém que possa, como no livro de Dostoiewski, despertar os ‘humilhados e ofendidos’».

O espectáculo está armado, resta saber quais as consequências sociais que pode provocar.

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