Fórum Social: o fim de um ciclo?

Por Jeferson Miola, via GGN
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Nestes tempos vertiginosos na América do Sul, com crises agudas no Brasil, Venezuela e Argentina, uma crise ao interior da tradição de esquerda/progressista está passando desapercebida. Trata-se da crise de existência e de destino histórico vivida pelo Fórum Social Mundial [FSM] e pelo seu Conselho Internacional [CI].

Pablo Solón, um intelectual orgânico que teve transcendência na luta contra a ALCA e o neoliberalismo na região e no processo de construção da Revolução Democrática na Bolívia, instiga a discussão estratégica sobre o pós-fim do ciclo do FSM e do CI.

O fator que estimulou a manifestação de Pablo Solón foi o intercâmbio de mensagens no CI sobre a realização ou não de um Tribunal Ético sobre o golpe no Brasil – iniciativa proposta por estrangeiros e que, curiosamente, parece não ter encontrado, no seio das organizações brasileiras que integram o Conselho Internacional, a mesma receptividade que encontrou junto a organizações internacionais daquela instância.

Em mensagem ao CI, Pablo propõe que na próxima edição do FSM em Montreal, em agosto de 2016, se realize um “bonito funeral do Fórum e do Conselho Internacional“. Entende ele:

Na vida tudo tem seu ciclo. Tudo nasce, cresce e morre para dar lugar a algo distinto. Muitas vezes se quer viver mais do que seu ciclo, e então se converte em uma espécie de zumbi; quer dizer, algo que existe, porem já não tem a vitalidade que tinha antes.

Com o maior respeito a todos vocês, eu creio que isso aconteceu com o FSM. O Fórum Social Mundial e o Conselho Internacional cumpriram seu ciclo, e o melhor a fazer é organizar um bonito funeral; uma digna morte, reconhecendo seu aporte, resgatando todas as lições, e fazendo um chamando a todos os atores jovens e antigos a que pensem nos novos caminhos a seguir.

Como será o novo que sucederá o FSM? Não sabemos, mas não tenhamos medo. O vazio que o Fórum deixa será preenchido com iniciativas diferentes que irão se construindo a partir das necessidades da nova realidade.

Não seria bom que em Montreal façamos um grande funeral do FSM com festa, lágrimas e muita convicção?

Às vezes o novo não encontra seu leito próprio porque estamos muito obcecados com o velho. Quase sempre o velho morre para reviver no novo“.

A análise do Pablo Solón é coerente com este tempo histórico. O FSM, assim como outras organizações e processos – tanto as de caráter político-partidário como outras – exibem incapacidades e falências relevantes diante das exigências do período. Isso é da vida.

Novos atores, novos processos e novas dinâmicas estão sendo testadas nos nossos países, com suas dialéticas próprias. E esses novos atores, processos e dinâmicas parecem não encontrar no Fórum um espaço-processo de expressão que em algum tempo do passado encontravam.

A resistência democrática no Brasil, por exemplo, revela a pujança e a têmpera revolucionária das juventudes, das mulheres e setores culturais que não encontraram ressonância nas organizações brasileiras do CI. A dinâmica que anima a luta política intensa e radicalizada em defesa da democracia e da Constituição, suplantou a letargia de atores político-partidários e sociais [como o FSM] que já não exercem a mesma capacidade convocatória e de encanto que exerciam nos anos iniciais do século 21.

Esta maravilhosa resistência contra esta direita reacionária que assume feições fascistas em cada país da região, tem de ser canalizada para o esforço de reconstrução de uma ampla aliança democrático-popular no sul do hemisfério latino-americano, como ponto de partida para a construção do “algo distinto” a que se refere Solón. A retomada dos planos imperialistas para a região, inclusive, é o pano de fundo desta nova etapa de lutas e resistências.

A presente conjuntura cobra um esforço adicional de reconstrução de um sujeito histórico que aglutine os movimentos sociais, os partidos políticos progressistas e de esquerda e as organizações civis na resistência contra a restauração neoliberal e conservadora em curso na região e no mundo inteiro.

Um outro mundo é necessário, mas é imperativo inventar-se formas novas para conquistá-lo e para torná-lo possível.

A íntegra da mensagem de Pablo Solón ao CI:

Estimado Chico, Boaventura, Francine, Gina, Rita, Candido y todos los amigos del CI

He seguido con mucho interés el intercambio de emails. Apoyo mucho la idea de un Tribunal Ético sobre el golpe en Brasil y toda acción que vaya en sentido de denunciar y revertir este gran atropello. Sin embargo, esta vez me quiero referir al futuro del FSM y el CI.

En la vida todo tiene su ciclo. Todo nace, crece y muere para dar paso a algo distinto. Muchas veces uno quiere vivir mas allá de su ciclo y entonces se convierte en una suerte de zombi. Es decir algo que existe pero que ya no tiene la vitalidad que tenia antes. Nosotros los seres humanos tendemos a aferrarnos a las cosas y espacios que logramos y muchas veces estiramos su existencia. Ese es el caso de muchas campañas, redes, movimientos, alianzas que cumplieron un rol muy importante pero que hoy día arrastran su existencia sin mayor incidencia.

Con el mayor respeto a todos ustedes yo creo que eso le ha pasado al FSM. El Foro Social Mundial y el Consejo Internacional cumplieron su ciclo y lo mejor es organizarles un hermoso funeral, una digna muerte, reconociendo su aporte, rescatando todas las lecciones, y haciendo un llamado a todos los actores jóvenes y viejos a que piensen en nuevos caminos a seguir.

El FSM cumplió su ciclo porque estuvo ligado a la emergencia de movimientos sociales a principios de siglo que lograron contener de diferentes formas el avance del neoliberalismo, llegando incluso a catapultar diferentes tipos de gobiernos progresistas que alcanzaron algunos logros pero que fracasaron en construir alternativas estructurales frente al neoliberalismo. Hoy estamos viviendo el fin del ciclo de gobiernos progresistas en Latinoamérica y también de los movimientos que los impulsamos.

¿Cómo será lo nuevo que remplace al FSM? No lo sabemos, pero no le tengamos miedo. El vacío que deje el FSM será llenado por iniciativas diferentes que se irán construyendo a partir de las necesidades de la nueva realidad.

Hoy estamos en medio de una lucha donde tenemos que resistir, frenar y derrotar la arremetida neoliberal que está en curso, y al mismo tiempo reflexionar de manera cruda sobre nuestros errores y los llamados gobiernos progresistas para así dotarnos de nuevas alternativas sistémicas y estrategias.

¿No sería bueno que en Montreal le hagamos al FSM un gran funeral con fiesta, lagrimas y mucha convicción? ¿Si no es en Montreal hasta cuando lo dejaremos languidecer? ¿Y que mejor despedida que un llamamiento muy corto a quienes no vinieron al FSM a imaginarnos y construir juntos nuevas iniciativas más acordes con la nueva situación?

A veces lo nuevo no encuentra su cauce porque estamos muy obsesionados con lo viejo. Casi siempre lo viejo muere para revivir en lo nuevo. 

Un fuerte abrazo

Pablo Solón“.

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